2012-04-20

O Espaço é Político (e é por isso que eles mandam a polícia de choque)



Atiradas para caixotes de lixo diversos ao longo das últimas três décadas, sem direito sequer a reciclagem, as utopias de mundos diferentes e formas alternativas de organizar a vida social quase desapareceram do território da discussão política contemporânea e foram completamente apagadas do espaço mediático. Nem as várias correntes da social democracia, nem as esquerdas ou os sindicatos burocratizados que estão por aí têm conseguido mais do que negociar e renegociar, de derrota em derrota, os seus mecanismos de suposta representação. 

O resultado é catastrófico: foram três décadas de transferência massiva de rendimentos do trabalho para o capital, de degradação e eliminação de serviços públicos, de crescentes desigualdades sociais, de mercantilização sistemática do quotidiano. Se depois da segunda Guerra Mundial, pelo menos na Europa do Norte, a regulação do capitalismo equilibrou razoavelmente a relação entre capital e trabalho, nos últimos 30 anos o capital ganhou em toda a linha e os direitos do trabalho tiveram um retrocesso cujas dimensões teremos um dia oportunidade de avaliar. O mundo hoje rege-se segundo os interesses do "mercados", ou seja, do capital. Não há alternativas nem utopias de mundos diferentes.

O movimento okupa tem conseguido ser uma das raras, senão a única, excepção a esta miserável tendência, pelo menos no mundo a que costumamos chamar "desenvolvido". Ocupar edifícios vazios para lhes dar um uso socialmente relevante (seja a produção cultural, a criação de espaços educativos ou a habitação) implica impedir a sua "normal" regulação pelos mecanismos de mercado vigentes: ocupar um edifício retira-o do mercado e dos mecanismos de regulação da ordem neo-liberal a que estamos sujeitos, sem discussão, como se esta fosse a única forma de organizar a sociedade. Não é inocente que estes movimentos, pacifistas na sua esmagadora maioria, sejam normalmente tratados pela imprensa convencional e restantes autoridades como "violentos".

Na Holanda, país europeu onde o movimento okupa assumiu maior expressão, sobretudo nos anos 1980, a ocupação de casas vazias foi legal até ao ano passado, mesmo tratando-se de um país capitalista (aliás com uma fortíssima inserção nos mecanismos comerciais e financeiros globais). No entanto, prevaleceu até 2010 a ideia de que a utilização do espaço não deve obedecer a critérios estritamente comerciais. Mesmo esta ideia de que o capitalismo pode ser regulado para satisfazer necessidades sociais foi hoje perdida: nenhum dos principais partidos da Holanda, mesmo na esquerda, defende o movimento okupa ou critica a violência da polícia em acções de repressão destes grupos.

Para a evacuação de um centro cultural ocupado a que tive oportunidade de assistir em Amesterdão, foram mobilizados um helicóptero, um barco (ali há canais…), dois tanques com canhões de água e dezenas de viaturas diversas carregadas com polícias de choque, numa enorme e evidente desproporção em relação à quantidade de pessoas que se manifestava e ao carácter pacífico do protesto: não há que dar qualquer veleidade a estes grupos que se atrevem a fazer funcionar redes de produção cultural e mecanismos de apoio social à margem dos mecanismos comerciais. Não pode haver nenhuma hipótese de o território deixar de ser regulado pelos interesses do "mercado" para ser usado de acordo com critérios de utilidade social.

É por isso que na Fontinha se assistiu a um caso muito semelhante, com a evacuação da Es.col.a: as pessoas que ocuparam o edifício abandonado evidenciaram a possibilidade de desenvolver iniciativas socialmente relevantes, em cooperação com a comunidade em que se integram, à margem das regras do capitalismo. E evidenciaram, já agora, a inépcia da autarquia, que nunca conseguiu dar ao edifício utilização relevante nos últimos anos.  A fúria com que atacaram os activistas e o próprio edifício, destruindo selvaticamente tudo o que encontraram mostra que eles não querem mesmo que se saiba que outro mundo é possível.



Fotografias da evacuação do Schijnheilig (centro cultural ocupado no centro de Amesterdão) durante as filmagens de "Liberdade Ocupada"

2011-12-16

Beyond debt speculation and austerity

Three South European Economists living in The Netherlands write about the consequences of austerity and debt speculation in their countries.


João Romão (Portugal), Sol Trumbo (Spain), Dimitris Pavlopoulos (Greece)



We are witnessing an apparently endless crisis. What started three years ago in the subprime mortgage market in the US has now spread to such an extent that the unity of Europe as a political and economic entity is questioned. Even the continuity of the Eurozone and the existence of the Euro as a common currency is at stake. The debt of the countries has become the hottest economic topic, overshadowing previous superstars such as the oil price.

Currently, the media stresses the urgency of taking important decisions within the Eurozone. The Eurobonds and the role of the European Central Bank are under discussion. European politicians are asking the IMF to support the European stability fund (EFSF), which in itself is nothing more than an enormous amount of money with as only purpose the securing the repayment of the unsustainable sovereign debt of some European countries. All the attention of the EU is on whether the Southern European countries will be able to repay their commitments to the international creditors. They present the sovereign-debt crisis as a result of mismanagement of public finances, corruption, low productivity, the excessively-large public sector and the extremely generous welfare state of the South European countries. The media affirm repeatedly that South Europeans must apply harsh austerity measures because they were living above their real capabilities. As the media say, now that “the party is over”, they have to follow the demands of the North European governments, the IMF, the European Central Bank and the European Commission in order to receive ‘help’ in the form of new loans that will allow them to roll-over their debt.

But, is it true that South Europeans are living above their capabilities? Are they enjoying better welfare benefits that their northern neighbors? A simple glance at the official OECD statistics reveals that in 2010 Greeks worked on average 2109 hours a year, Portuguese 1714 hours and Spanish 1663 hours, while the Germans 1419 and the Dutch 1377 hours. Greek males retire on average  at the age of 61.9, Spanish males at 61.4 and Portuguese at 63,5, while the Dutch at 62.1. The social expenditure as percentage of GDP is 25% in Greece, 23% in Portugal and 21% in Spain, while the EU-15 average is 27%. This data shows a very different picture of what is affirmed in the media. It demonstrates that the problem of the South European economies is not a too generous welfare state. In contrast, perhaps the problem is the weak and incomplete welfare state of the South European Economies is one of the reasons of their current economic stagnation.

By looking at the consequences of the application of austerity measures in the Southern European countries countries we can evaluate whether these measures have contributed to overcome the current crisis. The first measure that was applied by the governments was the injection of hundreds of billions to their domestic banks. The next step for the Greek government and later for the Portugese and Spanish government was the application of a traditional austerity package that was designed by the IMF with the support of ECB and the European Commission.

In Southern European countries, tens of thousands of civil servants are being laid off while the remaining see their salaries being severely cut. Welfare programs and benefits including pensions are abolished or severely cut,. Huge privatization in prices way below what we would recognize as ‘market prices’ have already started in key public enterprises, such as water supply, health care and public education. All these measures are applied in countries that already had an low level of public expenditure compared with their northern European counterparts. Indirect taxes on consumption including energy and food have been increased dramatically without any progressive element with respect to income,.

These policies that are given euphemistically the name "adjustment" or "austerity" are not only unfair as they affect the weakest members of society but are also unrelated of the current situation of economic disaster. These measures are just unable to mitigate the effects of the crisis.During an economic recession, while economic activity and consumption are low, the government instead of increasing, reduces public investments and expenditures. This creates a spiral negative effects in economic growth. These results are already visible: as a consequence of these policies, the Portuguese GDP will decrease with 3% in 2011 while the unemployment rate is reaching 14%. The contraction of GDP in Greece was 3.5% in 2010 and is expected to be at least 5.5% in 2011. In 2010, the Spanish GDP decreased by 0.2%. Although  it is expected to grow by 0.7% in 2011, this increase falls clearly short of the necessary growth to reduce unemployment that is expected to reach 23%, the highest of the EU. Furthermore, as the newly elected Spanish government promised the application of the most draconian austerity measures, the situation will only worsen as the Portuguese and Greek cases demonstrate.

In addition to the unfairness and ineffectiveness of these austerity measures, these have been always applied against the will of the population. There was a constant message from the politicians of all the main parties: “We have to calm down the markets”, showing that all economic measures were designed to satisfy not the needs of the people but the needs of the international markets and investors and especially those that had investors in Greed, Portuguese and Spanish sovereign debt.

These austerity measures are concentrating even further the wealth among the richest 1% that benefits from the speculative financial operations and the privatizations. On the other hand these austerity measures are producing poverty and misery in Southern Europe and it is only a matter of time until the people in Northern European countries experience the same consequences. The increasing inequalities in the Dutch society (the Gini Coefficient calculated by Eurostat increased from 26 in 1999 to 27,2 in 2009) as well as the level of unemployment and employment precarity among the young Dutch are clear signs of this tendency: unemployment rate for the population under 25 raised from 5% in 2001 to 8,7% in 2010, according to Eurostat (this is the lowest value for the EU but still represents a very relevant increment); on the other hand, part-time workers were 42,2% of total employment in 2001 and 48,9% in 2010 (from far, the highest value in the EU) and workers with temporary contracts were 14,3% in 2001 and 18,5% in 2010 (in the European Union, only Poland, with 27,3%, and Portugal, 23%, had higher values). This employment precarity affects mostly the young population, which is extremely exposed to the negative consequences of a possible economic recession.

Furthermore, the Dutch households are the most indebted in the Eurozone. Their debt amounts to more than 240% of their disposable income while in Portugal it is 128.6% and the Eurozone average ‘only’ 98.5%. This shows the weak situation of the seemingly rich Dutch households and how a raise in the unemployment or interest rates may rapidly derail the economy. The incipient effects of the crisis in Netherlands are only the beginning of what will follow if the current austerity policies are not abandoned. Taking more tax payers’ money from the North European workers to create a ‘super stability fund’ is not the solution, as it only benefits the speculators. In this issue, a clear-cut conflict of interest emerges between the few that profit enormously from the crisis and at the same moment are holding the political power in their hands, and the large majority of the population that is required to give their rights away to preserve the political and economic status quo. The outcome of this conflict will largely determine the future of our society.

2011-11-27

General strike in Portugal




On November 24, half of the Portuguese workers went on strike, according to information from trade unions. This general strike happened only 4 months after the last elections, when a new government has been elected, and has been called by the two central unions in Portugal. At the end of the day, a massive demonstration with tens of thousands of people, marched along the streets of Lisbon, ending in front of the Parliament.

This was the answer of the workers to the measures announced by the government for the budget for 2012, the first to be presented by PSD, the Social Democrat Party (despite the name, this is a liberal party, from which Durão Barroso, the President of the European Commission, is a member; in the European Parliament, they integrate the group of the Popular Party), after 8 years with PS, the Socialist Party, in the government (again: despite the name, this is a party more close to the social democratic tradition, although they have also been promoting neo-liberal policies, with privatization of public services and deregulation of labour and financial markets, following the examples by Tony Blair in England, Bill Clinton in United States, Zapatero in Spain or Papandreus in Greece).

In the last days of the Socialist government, an agreement with the IMF, European Central Bank and European Commission (the "Troika") had been signed, imposing severe austerity measures, privatization of more public services and more flexibility on the labour market. This agreement was supported by the Social Democrats, who would soon win the general elections. With this agreement, Portugal would receive a loan of 76.000 million euros and 35.000 millions euros will be paid in interest. From the money to be received, 1 in each 7 euros goes to the bank system. The international (and national) press calls it "help". But in fact, this expensive plan will not solve any problem related to the public or the external debt and will destroy any possibility for economic in the following years (or decades).

The Portuguese economy has important structural problems which are far from being solved: as a late industrialized country, Portugal specialized in low-tech products, like shoes or textiles, much dependent on its low cost and extremely exposed to international competition in the last decades. These sectors have almost been destroyed and unemployment raised, in a country with a very weak welfare system, which only started to be developed  in the mid 1970s, after the April Revolution (1974).

This weak welfare starte in now under threaten with the austerity measures, even if the Portuguese government had spent 550 million euros to rescue a bank (BPN) which would be sold a couple of months later for 40 million euros. This bank has been bankrupted when it was managed by a group of persons very close to the PSD: some of them were members of the government when Cavaco Silva (now the President of the Portuguese Republic) was the Prime-Minister and one of them is in jail; nevertheless, the bank has been sold to another group of people very close to the PSD and also to government of Angola. Cavaco Silva benefited himself from the transaction of shares of this bank, buying them with a price much below the normal market price.

Now, the austerity measures impose extreme restrictions to the purchaising power of the Portuguese citizens and the domestic market doesn't seem to be able to open new opportunities for economic development. On the other hand, the position of the Portuguese economy to compete in external markets is extremely weak, due to the low technological development, a very strong currency (the Euro) and the impossibility to devaluate it to increase external competitiveness.  Nevertheless, according to OECD data, Portuguese workers worked (on average) 1714 hours in 2010. In the same year, Dutch workers worked 1377 hours.

The agreement between the "Troika" and the Portuguese government (supported by the two major parties) has been the result of the successive problems of the Portuguese economy to be financed in the financial markets, as a consequence of its low economic growth (or even stagnation) and increasing public and external deficits. These difficulties increased with successive downgrades defined by the international rating agencies regarding the Portuguese state and banks, implying the payment of higher interest rates.

Just one day before the general strike, these rating agencies downgraded again the Portuguese debt, as a consequence of the last estimates for the evolution of the Portuguese GDP, which is expected to decrease 3% in 2011. In fact, the austerity measures were influenced by the downgrade of the Portuguese debt by the rating agencies, but when austerity policies were implemented to correct it, the rating agencies downgraded the Portuguese state again. The Portuguese economy is trapped in a vicious circle.

The measures proposed by the government in the budget for 2012 impose more austerity that it was defined in the agreement with the "Troika": a wider plan for privatizations (including energy companies, health or television), increasing taxes on labour and consumption (even for basic goods and services, like food or electricity), much higher prices for transport, imposition of free work (more half an hour each day, without payment) or elimination of the two "extra-salaries" that Portuguese workers normally receive (instead of 14 salaries per year, only 12 will be received in 2012; the minimum wage is 475€ and the average wage is below 900€ in Portugal). On the other hand, no increase has been noticed for the revenues of capital. Unable to devaluate its currency, the Portuguese economy is engaging in a process of "internal devaluations", imposing unemployment, poverty and social exclusion.

The massive participation of the Portuguese workers in the general strike clearly shows the opposition to these plans and their consequences: unemployment is now above 13% (more than 30% for young people), families complain that their children can not go to University and the number of homeless people in the big cities increases every day. This lack of hope contributed for this large protest against a government which had been elected just a couple of months ago. The economic policies proposed by the government are strictly related with the austerity measures that could reduce public debt, without any strategy for economic development or to compensate the negative social consequences of the austerity measures.

This mobilization happened one month after the very large demonstrations in the 15th of October, in different Portuguese cities. Only in Lisbon, more than 100.000 persons protested in front of the Parliament. Nevertheless, in the last general elections, both left wing parties lost some of their deputies: the Left Bloc received 5% of the votes (10% in 2009) and the Communist Party got 7% (10% in 2009) showing that they could not convince the population about real alternative solutions. One example: until now, no political party suggested to suspend the payment of the external debt (as it happened recently in Iceland or 10 years ago in Argentina). The protests are growing among the population, but new solutions are not arising from the political system.

2011-11-15

A long economic and social crisis in Portugal

Portugal is a peripheral European country, both geographically and economically: it has only one neighbor (Spain) and it's a small country, with a small and non-industrialized economy, highly dependent on the economic relations with Europe. When the decisions to join the European Union and the Euro were assumed, probably there was not an alternative to this process of integration, despite the risks of facing a very strong competition in open international makers or the tendencies to impose a neoliberal agenda in Europe. In fact, even if Portugal had decided not to join the European Union, this weak economy should be, in any case, involved in a global economic competition. 

On the other hand, Portugal has a very weak welfare state, developed very late, only after the Revolution in April 1974. On the contrary, the North-European countries had (and still have) the most developed welfare systems in the world and the strongest systems of social representation and negotiation. The weakness of the welfare system South Europe is clearly exposed in the following graph, which shows the social inequalities in some European countries. It is also possible to observe that these inequalities have been reducing in the South of Europe but also that they are increasing in a country like The Netherlands.



Source: Eurostat

This tendency for the increase of inequalities in more developed economies is clearly related with the "financialization" of the economies: the development of a large number of opportunities to speculate with "innovative" financial products, allowed the capital to reproduce and generate profit without using labour. Consequently, the share of the salaries in the global revenues in developed economies has been reducing in the last decades, imposing a consequent increase in the social inequalities.





in Jorg Huffschmid, "Financialization: the emergence of a new constellation in contemporary capitalism"

Joining the Euro-zone had deep implications for the Portuguese economy, extremely dependent on low-tech exports and basing its competitive position in the global markets on the low prices. Using a very strong currency like the Euro and losing the opportunity to devaluate it when necessary, the traditional industrial sectors in Portugal (like shoes and textiles) were almost completely destroyed in the last 20 years. These industries were highly concentrated in the North of country, where unemployment and poverty raised dramatically. The following graph shows the share of high-tech products among the total exports in some European countries, revealing the different levels of technological development of these economies. As an example of the consequences of free-trade among so different economies, we can observe that the exports from Portugal to Germany grew 5% between 2000 and 2010 and the exports from Germany to Portugal grew 87% in the same period.


Source: INE (Portugal)

As the following graph shows, the South European countries are those where people work more time, suggesting that the economic problems that they face are related with other causes, like productivity, technological development or management. 


Source: OECD

Unable to devaluate its currency to improve the competitiveness in global markets, the Portuguese economy is now following a dramatic process of "internal devaluation", imposed by IMF, European Comission and European Central Bank, following similar plans that are being applied in Greece (and, by the way, that had been applied in Chile in 1970's, in Brazil in the 1980's or in Argentina in the 1990's; if these countries could recover their economies to some extent, that was the result of refusing these neoliberal therapies, which destroy social cohesion and imply strong reductions on the rights of the workers and on the provision of public services, like healthcare, education, water distribution or energy supply, which tend to be privatized).

In Portugal, like in Greece, all these things are happening now: the Government has a large of privatizations, including water distribution and imposes drastic increases in taxes on the revenues and consumption, including the consumption of food and energy. On the other hand, social benefits related to health care, educations or transports are being strongly reduced. Nevertheless, taxes on capital or profits didn't increase and the government has refused, until now, to impose new taxes on the super-rich or on the inheritances. Finally, the public workers lost two of their 14 salaries a year, which is extremely important in a country where the minimum wage is 475€ and the average wage is under 900€.

The consequences of these austerity plans are dramatic: the economy is in deep recession, the internal market is blocked by the loss of purchasing power of the Portuguese families and the access to external markets is extremely difficult due the technological under-development of the country and the impossibility to devaluate its currency. These policies will make the crisis deeper and will not have any positive impact on the external debt, once the economy is not growing. But a small group of economic groups will benefit from the privatization of public services. In fact, the "Portuguese 1%" is very happy with this crisis. IMF and European Union are doing their job!

2011-11-09

Amesterdão II




Sou dos que tinham da Holanda a imagem de um dos países que melhor conseguiram organizar a sua sociedade, com um estado social desenvolvido, um planeamento urbano adequado, a defesa intransigente das liberdades e responsabilidades individuais ou a valorização da comunidade. Um ano depois de ter chegado a Amesterdão, verifico que a realidade é bem melhor que as minhas expectativas mas que o futuro pode ser muito pior.

A organização urbana de Amesterdão surpreende muito para lá de questões estéticas como a reduzida dimensão dos edifícios, a harmonia arquitectónica (apesar de não haver dois edifícios iguais) ou a água a correr pelos canais que percorrem a cidade. É também a quase total ausência de congestionamento, a mobilidade feita em transportes públicos ou bicicletas, mesmo quando há filhos para transportar com chuva, frio ou neve. Mas é sobretudo a estrutura de bairro que ainda prevalece, nos serviços públicos, no comércio ou na vida quotidiana: apesar da existência de um centro polarizador e cosmopolita onde se concentram as salas de espectáculos, os museus ou as discotecas, os bairros mantêm uma vida intensa, com os seus cafés e restaurantes mas também as suas lojas, desde os serviços de telecomunicações às retrosarias, desaparecidas das cidades portuguesas, ou aos coffee-shops, onde se podem comprar os canabinóides que a moralidade de quase todo o mundo remete para a ilegalidade.

A cidade está preparada para que qualquer pessoa tenha os serviços de que necessita a uma distância que pode percorrer a pé ou, quando muito, de bicicleta. Toda a cidade está preparada para a mobilidade dos velocípedes, com pistas e sinalização próprias e uma legislação altamente protectora para os ciclistas (em caso de acidente com um automóvel, a responsabilidade é sempre do automobilista). Nas ilhas a norte de Amesterdão, onde não se consegue chegar gratuitamente com as bicicletas, o transporte através de ferry-boat é gratuito porque a mobilidade é um direito de cidadania.

A economia não foi esmagada pelos shoppings, pelas cadeias de hipermercados e pelas grandes empresas de distribuição. Na realidade, há muito poucos centros comerciais em Amesterdão (não são construídos de raiz mas adaptados a partir de antigos edifícios) e não incluem cinemas, áreas de lazer ou grandes áreas de restauração. Há uma cadeia de supermercados cujas lojas estão longe de ter a dimensão das que se encontram à volta das principais cidades portuguesas e que não esmagaram o pequeno comércio alimentar nem os pequenos produtores agrícolas: continua a haver mercados de rua com produtos frescos por toda a cidade (foram banidos das cidades portuguesas), há as mercearias de diferentes países e há ainda lojas de produtos biológicos. Esta diversidade de oferta também contribui para garantir as possibilidades de sobrevivência dos produtores.

Esta organização urbana não é apenas o resultado de um sofisticado ou elaborado processo técnico de planeamento. Na realidade - e essa é a minha maior surpresa - ela foi sendo construída através de confrontos sociais e políticos, por vezes muito violentos, sobretudo a partir de meados dos anos 60. Na realidade, se o centro de Amesterdão é hoje o que é, com os seus típicos edifícios com dois ou três pisos e ruas estreitas para bicicletas, isso deve-se às fortes mobilizações populares que nos anos 70 permitiram contrariar os planos de "modernização" que poderiam ter desfigurado a cidade e transformado a sua vida (o mais famoso é o caso "Nieuwmarkt", que envolveu ocupação de casas, barricadas na rua para evitar a sua demolição e muita pancadaria com a polícia, até se abandonar o plano que previa o acesso por auto-estrada até ao centro). O direito ao espaço não congestionado, à economia e serviços de proximidade ou à vida de bairro foram conquistados pela população de Amesterdão, por vezes contra os planos para a cidade.

E no entanto, tudo isto pode agora estar em causa. Não há sinais de que o modelo de organização urbana e social tenha problemas significativos nem há qualquer crise económica que ameace a cidade ou o país. Mas o governo conservador que assumiu o governo há pouco mais de um ano tenta também impor a seu modelozinho neoliberal num país com fortes tradições social-democratas: sem necessidade aparente, também por aqui há cortes orçamentais, na educação, na cultura ou nos transportes públicos. Não é exactamente uma solução para um modelo que falhou, porque não há sinal de que isso tenha acontecido. Parece o contrário: uma vingança contra conquistas sociais que em poucos países do mundo se conseguiram. 

2011-11-08

Chegar à Universidade em Portugal e na Holanda




Este ano tive oportunidade de assistir à recepção a novos alunos numa Universidade portuguesa e noutra holandesa. Não encontrei nenhuma semelhança.

Numa breve visita à Universidade do Algarve passei por uma das alarves cerimónias que se foram popularizando nas universidades portuguesas nas últimas duas ou três décadas: um grupo de alunos recém-chegados à instituição, alinhado de joelhos mesmo à porta da Faculdade de Economia, era insultado por um bando de energúmenos, também alunos, em princípio do segundo ou terceiro ano. A rapariga que estava mais perto da porta por onde entrei tinha os olhos no chão e a voz tremia ao responder às perguntas que lhe eram dirigidas, aos gritos, e que invariavelmente terminavam com o cumprimento "sua besta".

Não me parece que este deplorável cenário seja excepção no panorama universitário nacional; pelo contrário, esta parece ser uma regra generalizadamente aceite. Imposta por alunos que se pretendem representantes de uma inexistente "tradição", dificilmente pode ser contrariada por quem chega de novo, com fundados receios de represálias violentas, quer do ponto de vista físico, quer psicológico. São muitos os casos conhecidos, ainda mais os desconhecidos, e poucos chegaram a ser julgados pelos tribunais.

E no entanto, é por demais evidente que grande parte destas práticas viola a legislação em vigor e o direito das pessoas à sua integridade e segurança. As "praxes" praticadas em Portugal são um exercício de selvajaria à margem das leis, que pouco ou nada têm a ver com a integração num ambiente universitário. Os docentes parecem assumir não ter qualquer responsabilidade na forma como os novos alunos são integrados na Universidade e auto-limitam a sua responsabilidade ao que se passa na sua sala de aula, num horário definido. Os orgãos de gestão da universidade insistem num silêncio que assinala a sua cumplicidade com estas práticas anti-pedagógicas, ilegais e, em muitos casos, criminosas.

Na Universidade onde estou a estagiar em Amesterdão também assisti a algumas actividades que decorreram durante a semana de recepção aos novos alunos. À entrada, duas conhecidas discotecas da cidade promoviam com música electrónica as suas festas com preços especiais para estudantes, que haviam de decorrer ao longo da semana. Pelos corredores viam-se grupos de alunos, guiados por professores, a conhecer as instalações e os serviços disponíveis (salas de aula, auditórios, bibliotecas, apoio informático, etc). No pátio, dezenas de organizações (a generalidade dos partidos políticos, várias ONG e prestadores de serviços) distribuíam informação que se dirigia, sobretudo, a quem era novo na cidade.

Na Holanda, não assisti, durante uma semana, a qualquer prática violenta ou humilhatória, apesar de ter assistido a muito diversas actividades de recepção aos alunos. Em Portugal, em meia hora, a única coisa que vi foi a selvajaria que se foi banalizando no meio académico. A diferença está no envolvimento dos professores e de quem gere as Universidades na programação e dinamização das actividades de recepção aos alunos. Mas se isto é pedir muito em Portugal, ao menos que se chame a polícia.

2011-03-09

12 de Março: na rua pelos direitos perdidos

A perda de direitos laborais e a precarização doemprego não podem ser traduzidas num conflito geracional nem são fenómenos estritamente portugueses: é um processo global de ofensiva sobre o emprego que se vai acumulando desde meados dos anos 70.

Estes direitos não tinham sido decretados pela boa vontade de governantes nem resultaram de estudos técnicos que os justificassem: foram o resultado de muitos anos de conflitos sociais e políticos, em todo o mundo, ao longo dos dois últimos séculos: greves, boicotes, manifestações, confrontos físicos, mortes marcaram este conflituoso processo, assinalado, por exemplo, com o dia 1 de Maio, universalmente consagrado como o Dia do Trabalhador.

Desta conflitualidade foram resultando formas de representação e negociação social que criaram condições para uma mais justa regulação política da relação entre o capital e o trabalho, que por sua vez levaram à consagração de direitos dos trabalhadores: negociação colectiva, direito a férias pagas, regulação de horários, pagamento de horas extraordinárias, assistência na doença, apoio no desemprego ou indemnizações por despedimento são exemplos de direitos conquistados dos séculos XIX e XX (e em Portugal sobretudo após o 25 de Abril).

Estes direitos e estas estruturas de representação foram construídas em sociedades industrializadas e em função das relações económicas e laborais que as caracterizavam: concentração urbana e proletarização, produção em massa, uniformização dos ritmos e condições de trabalho, economias pouco abertas e internacionalizadas são algumas das características das sociedades em que se foram construindo mecanismos de regulação do trabalho e de protecção social: o "Estado Providência", com evidentes diferenças entre países mas sobretudo desenvolvido nos países europeus.

Estes mecanismos equilibraram a relação entre trabalhadores e empregadores, conduziram a sociedades mais protegidas e inclusivas, permitiram processos de distribuição de rendimentos mais justos e foram acompanhados de um longo período de crescimento económico, sobretudo entre o pós II-Guerra e meados dos anos 70. Durante esse período, os salários foram ganhando um peso cada vez maior no conjunto da riqueza produzida, em detrimento dos rendimentos do capital (lucros, juros e rendas).

A partir de meados dos anos 70 esse processo inverte-se e os salários vêm perdendo cada vez mais peso na riqueza produzida, como se pode observar no gráfico seguinte (relativo aos EUA, Japão, União Europeia e Alemanha):


Há pelo menos três importantes transformações nas sociedades e economias contemporâneas que facilitaram esta ofensiva do capital sobre o trabalho:

Liberalização global de mercados: a possibilidade de "deslocalizar" unidades industriais para países de mão-de-obra mais barata criou mecanismos globais de "dumping" social, desvalorizando o trabalho: ou os trabalhadores aceitam trabalhar com menos direitos ou as empresas fecham e deslocam a produção para outro lado; este processo conduz ao aumento do desemprego e facilita a chantagem da imposição de empregos sem direitos.

Financiarização das economias: a criação de múltiplas oportunidades especulativas nos mercados financeiros globais permite ao capital reproduzir-se sem recurso ao trabalho: não é necessário investir em unidades produtivas ou contratar pessoas para reproduzir o capital, que pode obter benefícios através de transacções meramente financeiras (transacções de moedas, acções, títulos de dívida pública e um vasto rol de "produtos financeiros" alimentaram uma vertigem especulativa que havia de conduzir à crise actual). O gráfico seguinte mostra o crescimento extraordinário deste tipo de transacções nos últimos anos.


Terciarização e desindustrialização das economias: fragilizou estes mecanismos de representação social, estruturados em função das economias fordistas, dos proletariados industriais e suas representações sindicais. A economia dos serviços e o crescimento generalizado das formas atípicas de contratação conduzem à atomização de largos sectores de trabalhadores, à sua não representação institucional e a uma crescente fragilização dos mecanismos de regulação social.

O resultado actual é o de que o trabalho é quase dispensável (há outras formas de o capital gerar lucro) e descartável (as formas atípicas de contratação tendem a facilitar o despedimento e a reduzir drasticamente os direitos do trabalho). Os trabalhadores desta "nova economia" não beneficiam dos mecanismos de representação que tinham sido conquistados e estruturados em função de outro tipo de sociedades e economias (e esse é, desde há algumas décadas, um desafio que as estruturas sindicais actuais não conseguiram resolver).

Sem representação de cada vez mais trabalhadores, as formas de regulação social e de protecção do trabalho são cada vez mais débeis, o desemprego cada vez maior e o peso dos salários na repartição da riqueza cada vez mais baixo. É por isso tempo de retomar as lutas pelos direitos que se perderam. Nas ruas, nas manifestações, nas greves, onde for preciso. A mobilização de 12 de Março em Portugal é apenas o princípio.


Os quadros foram retirados de uma apresentação de Jorg Huffschmid no Congresso Karl Marx, em Lisboa. O documento completo com as apresentações de Huffschmid e Francisco Louçã num debate sobre a crise económica global está disponível aqui.

2011-01-30

Amesterdão I


Amsterdão tem as vantagens das grandes cidades mas não tem as desvantagens: a mobilidade é fácil, em transportes públicos ou bicicletas; circulam poucos carros na cidade, devagar e com um cuidado extremo com ciclistas e peões; não há congestionamentos, poluição ou stresses típicos de cidades congestionadas com gente em correrias mais ou menos despropositadas; encontra-se com facilidade actividades culturais (museus, teatros, concertos, cinemas), em circuitos mainstream ou marginais, com uma extraordinária variedade de origens e influências; há sempre locais interessantes para visitar (monumentos, jardins, zonas urbanas) e tive oportunidade de assistir a uns dez filmes no maior festival de documentários da Europa (o IDFA, com uma extraordinária organização); há bares e restaurantes para todos os gostos e há comunidades auto-organizadas de squatters que vivem em casas ocupadas e muito contribuem para a diversidade cultural da cidade.

Cinema Tuschinsky

A cultura squatter tem origem na Holanda nos anos 60, constitui uma importante singularidade do país, tem vindo a transformar-se e pode vir a ter os dias contados: se nos anos 60 e 70, dizem-me, as ocupações eram promovidas por grupos e associações locais que se mobilizavam para encontrar casas vazias prontas a ser habitadas por quem chegava à cidade (sobretudo imigrantes), hoje trata-se sobretudo de pessoas que ocupam casas para a sua própria habitação. Entretanto, a ocupação foi legalizada: desde que estivesse desocupada há mais de um ano, qualquer casa podia ser ocupada e tornar-se residência legal dos ocupantes, verificada por técnicos municipais. Milhares de pessoas das mais diversas origens vivem assim em Amsterdão e outras cidades holandesas mas o governo (de direita) que tomou posse em setembro tentou imediatamente acabar com as ocupações, com uma lei publicada no início de outubro mas que acabou por ainda não entrar em vigor devido a complicações jurídicas que, tarde ou cedo, serão ultrapassadas.

Manifestação contra as novas leis anti-squatting

A circulação em bicicleta é outra singularidade de uma cidade que parece saída de um livro de fantasia, com os seus quase 60 kms de canais e os edifícios medievais que ocupam quase todo o centro da cidade, sem torres ou grandes edifícios, convidando ao passeio e ao convívio descontraído. Também eu comprei uma bicicleta quando cá cheguei e, como a cidade não é muito grande, demoro cerca de 15 minutos a chegar ao centro ou à universidade (que fica na periferia sul, onde começam a aparecer agora grandes edifícios de escritórios de multinacionais, perto da estação dos comboios de alta velocidade). Em todo o caso, também o metro e os eléctricos (que em certas zonas utilizam as mesmas linhas) são bastante eficientes (e preferíveis, pela parte que me toca, quando neva, chove ou faz um frio para lá do suportável - ainda que estas coisas nem sempre intimidem suficientemente os indígenas).

Eu e a minha bicicleta (República, de seu nome)

A forma simples como se trata de problemas que parecem complicados noutros lugares também chama a atenção: a prostituição organizada (com impostos, segurança e inspecções de saúde) nas ruas do Red Light District transforma um fenómeno degradante de muitas cidades (como se vê em muitas ruas de Lisboa) num atractivo turístico onde se dignifica quem exerce a mais velha profissão do mundo. Os coffee-shops onde se vende haxixe e erva eliminam o tráfico ilegal, tornam os produtos seguros e controláveis e constituem outra atracão turística relevante. Até os urinóis espalhados pela cidade facilitam bastante a vida da população masculina e evitam o cheiro a mijo que se acumula inevitavelmente em pontos mais obscuros das grandes cidades.

Um dos coffee-shops da cadeia Bulldog, os mais antigos da Holanda

Red-light district (não se fotografa o pessoal que está a trabalhar)

A organização da cidade torna a vida fácil e descontraída e os serviços públicos (mesmo que prestados por entidades privadas) facilitam a inclusão: há imensas creches, o nível de educação é muito alto, toda a gente fala inglês (incluindo muitas crianças) e não se vê gente a dormir nas ruas. Esse é, aliás, o principal motivo do orgulho nacional holandês: "Deus criou o mundo mas os holandeses fizeram a Holanda", dizem por aqui. Mas este modelo social pode estar ameaçado pelo novo governo, de direita e com suporte parlamentar da extrema-direita anti-islâmica, que está a promover cortes profundos em despesas relacionadas com a protecção social, a inclusão de imigrantes, a cultura e a educação (uma recente manifestação de estudantes em Haia mobilizou cerca de 15 mil pessoas e terá sido a maior desde os anos 80).

Livraria de livros usados (sobretudo em inglês)

O culto das flores e dos livros e os mercados ao ar livre são outras marcas da cidade. Além do mercado exclusivamente dedicado às plantas, há floristas por toda a cidade, enquanto os livros são bem visíveis nas vastas bibliotecas pessoais que se podem observar através das grandes janelas das casas das pessoas. Há muitas livrarias, de livros novos ou usados, com publicações em holandês ou inglês (ou mesmo noutras línguas, ainda que seja mais difícil). Também há muitos mercados ao ar livre, onde se vende de tudo, desde peixe fresco a bicicletas, passando por roupa, livros, música ou móveis.

É aqui que costumo comprar peixe fresco

Se a cidade parece um paraíso para quem gosta de uma vida tranquila e sem problemas, também se torna um atractivo turístico talvez excessivo para a sua dimensão: agora que está frio as coisas acalmaram um bocadinho, mas é normal as ruas do centro estarem completamente cheias de turistas a falar nas mais diversas línguas. Amsterdão é "a Veneza do Norte", há quem diga, uma bela cidade com uma organização exemplar. Mas, como lembra uma personagem do grande livro "A descoberta do Paraíso", do escritor holandês Harry Mulisch, "felizmente Veneza não é a Amsterdão do Sul e não se lembraram de construir um edifício como a Estação Central a tapar a vista da baía".

2011-01-23

Triste, é muito triste



O resultado das eleições presidenciais deste domingo tinha ficado decidido no final de Maio, quando José Sócrates anunciou oficialmente o apoio do PS a Manuel Alegre: hábil como poucos na gestão dos interesses dessa massa imensa que constitui o "bloco central", o líder do PS economicamente mais liberal da história contemporânea portuguesa sabia que esses eleitores, os mesmos que lhe foram dando sucessivas vitórias eleitorais, jamais votariam em Manuel Alegre. Se por acaso o nosso excelso primeiro-ministro não sabia disso, o resultado é o mesmo: esses votos foram directamente para Cavaco Silva, provavelmente sem passar pela abstenção. Defensor de Moura ainda se lançou à piscina, em desespero de causa, numa tentativa naturalmente infrutífera para um candidato que, se até trouxe à pobre campanha eleitoral algumas ideias dignas de registo (por exemplo, a cerrada defesa da regionalização), estava muito longe de ter o carisma necessário para uma mobilização significativa.

Nessa altura escrevi este texto, onde referia, entre outras coisas, que a decisão do BE de apoiar Alegre não respeitava a orientação definida em Convenção Nacional e que por isso me recusava a apoiar este candidato. Também lembrava as declarações de um dirigente nacional bloquista a recusar a hipótese de o BE apresentar o mesmo candidato que o governo. E esta foi uma trágica novidade na presença eleitoral do Bloco de Esquerda: pela primeira vez se lançava uma mensagem dúbia, contraditória, incoerente. Até aqui, boas ou más, necessariamente criticáveis, as posições do Bloco tinham sido sempre claras e inequívocas. Foi assim que se puderam usar slogans como "Olhos nos Olhos" ou "Esquerda de confiança". Finalmente, lembrava no dito texto que Alegre seria sempre um candidato silenciado, refém do apoio do partido do governo que lhe havia de tolher as palavras e os actos.

Tornou-se tudo isto demasiado evidente com o tempo, em particular duraste a campanha eleitoral e sobretudo no debate entre Alegre e Cavaco Silva, um lamentável momento para o patético candidato das "esquerdas", que foi rapidamente encostado às cordas e sucessivamente esbofeteado durante 25 minutos, sem reacção que se visse quando foi tratado como ignorante ou aldrabão. Mesmo as mais absurdas declarações de Cavaco, como a da "cruzada pela educação" em que afirmou estar empenhado nos últimos anos, quando mais de cem mil professores estiveram nas ruas em protesto e milhares de alunos deixam o ensino superior por não conseguirem suportar as inerentes despesas, ficaram sem resposta de Manuel Alegre, comprometido e silenciado pela sua íntima ligação às políticas do PS.

Podia ter sido diferente e Manuel Alegre perdeu uma grande oportunidade de ser o polarizador de uma nova esquerda que disputasse os poderes em Portugal, depois do excelente resultado e da grande mobilização cidadã que conseguiu, contra o seu próprio partido, há cinco anos. Mas afinal, como também escrevi há muito tempo, as iniciativas conjuntas com o BE (excluindo deliberadamente o PCP) e as críticas pontuais a aspectos da governação do PS foram um mero instrumento para reunir os meios que Alegre julgava necessários às suas próprias ambições: ter o apoio das duas máquinas partidárias para chegar a Presidente da República. Como não era difícil de prever, não só perdeu o apoio do "movimento cívico" que o apoiou em 2006, como não teve o apoio de grande parte dos militantes do BE, foi liminarmente rejeitado e altamente criticado pelo eleitorado comunista e votado a um evidente desprezo pelos próprios companheiros de partido, que naturalmente não esqueceram a "deslealdade" de há cinco anos (da mesma forma que no Bloco não se esqueceu a "deslealdade" de Joana Amaral Dias, bem menos importante, já que não se candidatou contra o partido, ainda que apoiasse um candidato diferente).

O caminho de convergência das esquerda que Alegre não quis fazer tinha que ser feito por outro: as eleições presidenciais não implicam a definição de programas de governo, a elaboração de listas ou a negociação de lugares mas permitem começar a discutir perspectivas e valores para políticas alternativas. Tendo em conta os últimos anos, em que a mobilização em torno de questões laborais constituiu o mais importante factor de convergência das esquerdas, Carvalho da Silva seria a hipótese mais evidente. Da mesma forma que a aliança entre o Bloco e Alegre se construiu ao longo de dois ou três anos, uma convergência das forças de esquerda (incluindo o PCP, evidentemente) teria que construída ao longo do tempo. E é essa convergência que muitos comunistas, bloquistas ou cidadãos que percebem a necessidade de uma mudança radical de políticas esperam. Pelo contrário, encontram direcções partidárias ou personalidades mais preocupadas com os seus poderes e influências pessoais do que com a efectiva construção de alternativas viáveis. É um retrato vivo do sectarismo ainda dominante nas esquerdas.

Para o Bloco, este é o segundo resultado eleitoral desastroso consecutivo, a seguir a dois excelentes desempenhos: nas últimas eleições legislativas e europeias o BE conseguiu reforçar substancialmente a sua presença institucional mas teve depois um péssimo resultado autárquico, pondo também em evidência o carácter centralista e cada vez mais burocratizado de um partido em que a implementação e o enraizamento locais estão muito longe de corresponder à representatividade parlamentar. A derrota de hoje corresponderá, provavelmente, ao primeiro grande erro de uma direcção política que tem em geral sabido tomar decisões correctas e comunicar com eficácia com os eleitores. Mas permitir que se entenda esta candidatura como uma iniciativa conjunta com o PS de Sócrates é um erro muito grave, porque destrói a confiança e a clareza com que o Bloco foi conquistado simpatias e influências. Por outro lado, acaba de vez com o que podia ser o "alegrismo" dentro do PS, esvaziando de conteúdo a suposta "convergência". Reconhecer o erro será o mais elementar passo para uma intervenção futura mais forte mas, como se sabe, reconhecer erros é coisa para gente que sabe que se engana e frequentemente tem dúvidas. É o que está para ver. Entretanto, temos pela cinco anos sempre à direita: quem vai beneficiar do desgaste e da derrota do PS não é a esquerda.

2010-09-25

Vila Real de Santo António: o assalto à cidade


Quase a meio do segundo mandato do PSD na Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, a autarquia tomou finalmente uma iniciativa estruturante sobre o território do concelho, com a tentativa de regular o estacionamento em Monte Gordo durante o período balnear. O resultado foi um desastre: os parques de estacionamento junto à praia que passaram a ser pagos tiveram uma utilização diminuta em comparação com os anos anteriores, o parque alternativo gratuito criado fora da povoação nunca foi utilizado e generalizou-se o estacionamento ilegal em todos os passeios de Monte Gordo. Ficou à mostra a inépcia da Câmara, e em particular do seu presidente, para intervir sobre o território municipal.

Sobre as outras intervenções decisivas para o futuro do concelho, nomeadamente a relação de Vila Real de Santo António com a sua frente ribeirinha, pouco ou nada se discute publicamente. Mas entretanto ficou a saber-se, através de um patético vídeo que esteve on-line mas desapareceu, que a autarquia entregou a alguns prestigiados arquitectos a responsabilidade de redesenhar algumas áreas de importância estratégica para o futuro do concelho. Não há no vídeo uma única referência ao problema da habitação, à fixação da população jovem, à atracão de unidades de ensino universitário ou à dinamização económica. Mas sobram as comparações entre o trabalho do actual edil e o do Marquês de Pombal (lol) e a garantia de oferta dos melhores espaços da cidade à exploração turística.



Segundo o vídeo, haverá novos hotéis em Monte Gordo (onde está o Parque de Campismo), na Praça Marquês de Pombal, na zona do antigo Porto de Pesca e na zona da Ponta da Areia. Prevê-se também uma marina a meio do pontão e a instalação de uma torre de 25 pisos na sua entrada. Estas opções implicam necessariamente a privatização do acesso ao pontão, usado pela população de Vila Real nos últimos quase 40 anos nas mais diversas actividades recreativas. Significa também o fim da Feira da Praia, pelo menos em moldes semelhantes aos que conhecemos. E significa a sujeição do território a supostos interesses da sector imobiliário e turístico, em evidente detrimento das necessidades da população local, nomeadamente no que se refere à habitação para jovens.

A informação sobre estes projectos vai aparecendo pontualmente, como é o caso desta notícia. A sua legitimação não é feita através de processos públicos de discussão ou sequer através de mecanismo mais básico de ordenamento territorial, que é a definição de um Plano Director Municipal que clarifique as opções e orientações para a ocupação do território concelhio. Compreende-se: esta autarquia sempre preferiu o espectáculo populista que vá alimentando as ilusões da populações à discussão efectiva e à mobilização das pessoas para os processos de desenvolvimento. Neste caso, o Presidente da Câmara sabe que a população não aceitará que a Ponta da Areia seja privatizada, que se acabe coma feira ou que a Praça Marquês de Pombal se torne um recinto para hotéis. É por isso que, em vez de um Plano Director Municipal com a inerente discussão pública, a autarquia prefere a demagogia propagandística dos desenhos que encomenda a prestigiados arquitectos. É este o caminho que está a ser seguido para Vila Real de Santo António ser roubada à sua população.

2010-09-23

O BE e os Movimentos Sociais


Partindo de um desonesto equívoco, traz o Zé Neves orientações morais sobre a relação entre os funcionários dos partidos (no caso do Bloco de Esquerda, que é chamado ao título) e os movimentos sociais. Esse equívoco de partida está expresso na frase onde afirma que "um movimento dinamizado por funcionários de um partido terá sempre no funcionário (que tem a vantagem de ser pago para fazer política) um protagonista principal".

Cruzei-me com o Zé Neves num desses "movimentos sociais", no caso a organização do Mayday, em Lisboa. Vi-o em duas reuniões, não me lembro de nenhuma discussão importante e muito menos de qualquer conflito, sanável ou insanável. O certo, no entanto, é que o Zé Neves rapidamente deixou de aparecer. Não cheguei a perceber as razões que o levaram a isso e que o próprio fez questão de não clarificar, mas fiquei finalmente esclarecido com este post, equivocado e tardio mas revelador da fraca coragem e honestidade do autor (até porque o assunto foi bastante discutido, com outras pessoas).

Nessas reuniões do Mayday a que o Zé Neves dedicou algum do seu precioso "tempo de militância", eu era uma das raras pessoas que trabalhava para o Bloco de Esquerda (e haveria mais duas, entre 30 ou 40 que participantes). Se era a nossa presença que tornava o ambienta anti-democrático, oprimia a liberdade de expressão e/ou contribuía para a imposição de supremas orientações partidárias, bem podia o Zé ter dito qualquer coisa, que o assunto havia de ficar esclarecido por ali. Esta converseta tardia é um bocado rançosa.

Posso esclarecer duas coisas:

- sendo funcionário do BE, a meio tempo, nunca tive qualquer tipo de tarefa ou tempo de trabalho afecto a actividades de movimentos sociais (nem o Mayday, nem os Precários Inflexíveis, nem o SOS-Racismo, de que sou associado pouco participativo); posso garantir que nessa altura nenhum funcionário do Bloco tinha no seu tempo de trabalho qualquer função ou tarefa relacionada com o Mayday ou outros movimentos;

- também fiz parte da Mesa Nacional do Bloco de Esquerda e posso garantir que em nenhuma circunstância se discutiu ali qualquer tipo de orientação para o Mayday ou outra intervenção de movimentos sociais; nunca discuti nos órgãos do Bloco a participação no Mayday ou em movimentos de precários; nunca dei ou recebi "instruções", "orientações" ou sequer "sugestões" sobre como organizar a actividade do Bloco nesses movimentos.

Assim sendo: que o Zé Neves não queira trabalhar comigo ou qualquer outra pessoa por sermos funcionários de um partido é um direito que lhe assiste, ainda que me pareça que estamos num domínio semelhante ao da xenofobia, com a desinformação e a ignorância que lhe são inerentes; que promova outras formas de organização e mobilização é outro direito que lhe assiste e terei mesmo muito gosto em vê-las em acção no dia em que vierem a existir; agora, vir com esta sonsa pregação moral recomendar aos funcionários dos partidos que não participem em movimentos sociais é tão pretensioso como desnecessário: o pessoal há-de continuar, nessas e noutras lutas, como qualquer pessoa. Cá por mim, acho que "era bom" colocar as questões com honestidade nos momentos em que é preciso discuti-las.

2010-06-21

Nova Iorque e Washington: o Império em ruínas

Metro de Nova Iorque

Durante a minha estadia em New Haven terei feito umas dez viagens a Nova Iorque, um percurso de hora e meia num comboio regional de qualidade duvidosa, que não ultrapassa a dos portugueses. Nada que se compare com o metropolitano da cidade: eficiente, com poucos tempos de espera e funcionamento de 24 horas por dia, mas com um aspecto sujo e sombrio, ar pesado e carruagens que abanam perigosamente, onde é bom estar bem agarrado para evitar quedas. Esse é um primeiro sinal da degradação das infra-estruturas do centro do Império, também visível na degradação das estradas e auto-estradas, das estruturas dos viadutos ou das pontes, onde é evidente a ferrugem dos metais que a sustêm: cá por mim, o Império cairá de podre nas próximas décadas.

A Ponte de Brooklyn, cheia de ferrugem (e atrás os edifícios de Wall Street)

Grande parte cidade de Nova Iorque também tem um aspecto degradado e sombrio, mesmo no centro de Manhattan, onde a altura dos edifícios impede a luz de chegar directamente ao passeio. A venda ambulante de comida ou recordações não tem o encanto prometido pelos postais ilustrados ou pelo cinema e os artistas de rua não são tão numerosos como a imaginação me tinha sugerido, nem sequer, por exemplo, nas zonas próximas dos museus de arte ou no Central Park, esse gigantesco oásis onde milhares de pessoas passeiam, fazem desporto ou saboreiam piqueniques mesmo no centro da cidade.

Vista desde o topo do Rockefeller Center

Nada disto ofusca a intensidade da vida em Manhattan ou Brooklyn, as zonas de Nova Iorque que visitei, onde circulam diariamente muitos milhares de turistas e vários milhões de residentes, nos seus movimentos quotidianos entre o trabalho e o emprego. Em Fevereiro a cidade era gelada mas em Maio já era bastante quente e em todos os meses se encontrava uma multidão em permanente circulação na zona central da Broadway, em torno da famosa Times Square, onde por coincidência vi o Mayor de Nova Iorque rodeado por agentes do FBI, às três da manhã, a fazer uma conferência de imprensa no rescaldo do recente atentado falhado.

Conferência de Imprensa na Times Square

Depois da meia-noite o movimento desta zona diminuí muito consideravelmente: fecham os lojas, restaurantes e grande parte dos bares, os teatros já acabaram há muito, e os lixos são colocados em sacos de plástico às portas dos estabelecimentos oferecendo a quem passa um aspecto desolador. Os últimos clientes dos restaurantes, mesmo os mais caros, enfrentam pilhas de lixo quando saem para a rua depois de pagar a conta. Ficam então os clubes, muitos e com boa música, da "latina" ao "house", passando, naturalmente, por muito jazz. A variedade de restaurantes, já agora, é imensa: podem certamente encontrar-se algures pratos de todo o mundo.

Paga-se a conta e enfrenta-se o lixo à saída

O teatro é uma actividade importante na cidade, quer as grandes produções da Broadway (assisti a "Mary Poppins", um clássico musical com grande produção), quer as pequenas produções que ali se designam "Off-Broadway" (assisti a duas em Nova Iorque e mais quatro em New Haven), sempre com grande qualidade na representação por actores e actrizes muito versáteis, na expressão corporal, na forma como falam e até na forma como cantam (ainda que eu não seja exactamente um grande conhecedor ou crítico de teatro). Na Times Square podem comprar-se bilhetes com grandes descontos para a Broadway (o que mesmo assim não torna os bilhetes baratos), há muita gente a anunciar pequenos espectáculos de "Stand-Up Comedy" e a "Time-Out" é um guia bastante razoável para a imensa oferta cultural da cidade (com a sua vasta colecção de galerias e museus dos mais variados temas).

Vista desde o Lincoln Memorial (ao fundo o Capitólio)

Se esta cidade tem muito de degradação e decadência, Washington, em compensação, é um território asséptico: apesar das más-estradas que ligam as duas cidades (degradadas, com trânsito intenso e animais mortos no asfalto), quando se chega a Washington a diferença é evidente: espaços ajardinados, um imenso Parque Verde no centro da cidade, rodeado por Museus e edifícios governamentais, com o Lincoln Memorial num topo e o Capitólio no outro, numa distribuição simétrica em torno do Washington Monument. Não se encontra a multi-culturalidade de Nova Iorque (ou mesmo New Haven), nem se ouve falar espanhol: vêem-se funcionários públicos engravatados e turistas que visitam os excelentes museus gratuitos da cidade ou se fazem fotografar junto à Casa Branca e outros edifícios que conhecemos dos telejornais, sobretudo quando há declarações de guerra ao Médio Oriente. Por aqui circulam autocarros com a figura de Ahmedinejad, com ameaças pouco subtis ao regime iraniano. Uma propaganda interna que não é notícia mas que seria certamente objecto de muita crítica se acontecesse em Teerão.



Fotografias de Nova Iorque e Washington

Saramago, um país apagado e alguns totalitarismos

Ilustração de André Carrilho (DN, 2009)

Não serei dos melhores leitores de Saramago: encantado com o Memorial do Convento, viria depois a ler a História do Cerco de Lisboa e a Jangada de Pedra, que alimentaram a minha admiração por aquela escrita, num estilo que viria a abrir novos horizontes a outros escritores portugueses e que até ajudou aos meus escritos, jornalísticos, académicos ou pessoais, que foram ganhando (digo eu) pequenas alterações na marcação dos ritmos, certamente influenciadas por estas leituras. Mais tarde também li, sem ter gostado muito, o Ensaio sobre a Cegueira, e por aí se ficaram as minhas leituras da impressionante obra que Saramago produziu, também em resultado de algum cansaço pelas gigantescas operações mediáticas em que se tornaram os lançamentos dos seus livros.

Talvez graças ao reconhecimento internacional que resultou da atribuição do Prémio Nobel, Saramago acabou por tornar-se um improvável companheiro da minha existência ao longo do último ano, em que vivi longe de Portugal, primeiro em Istambul e depois nos Estados Unidos, em que me pude aperceber da irrelevância da cultura portuguesa contemporânea a nível internacional: é o único escritor conhecido (alguns conhecem Pessoa mas trata-se quase sempre de estudantes de literatura) e praticamente não encontrei quem conhecesse outras figuras vivas da cultura portuguesa (ainda que em geral conheçam o fado e apreciem alguma música contemporânea que eu apresente).

Ainda mais preocupante é a presença da economia nacional: quando me perguntam o que se produz em Portugal, tenho sempre dificuldade em dar respostas credíveis: sapatos e roupas (mas nenhuma marca conhecida), vinhos (mas nenhum à venda nas lojas onde se vendem vinhos italianos, espanhóis, franceses, chilenos ou argentinos), automóveis (para a VW), cortiça (mais ou menos invisível). Tinha mesmo que explicar que até o bacalhau que é marca da nossa gastronomia é importado da Noruega e acabava por dizer que, realmente, nas últimas décadas Portugal tem-se especializado em não fazer nada.

Este é um contexto em que a figura de Saramago ganha uma particular importância para a afirmação internacional de um país cada vez mais débil economicamente e apagado culturalmente. Que esta triste figura não compreenda essa importância é um pormenor pouco relevante; mas que o Presidente da República não compareça às cerimónias fúnebres não é apenas um sinal dos seus fracos horizontes culturais: é também a demonstração de que as suas limitadas vistas pessoais se sobrepõem ao interesse de um Estado que supostamente representa. Mesmo sendo verdade que seria mais um sapo a engolir pelo Sr. Presidente e uma companhia que provavelmente Saramago dispensaria, esperava que o Estado português assumisse a máxima representação numa última homenagem a uma figura com muito raro reconhecimento internacional.

As razões desta ausência serão semelhantes às levaram a hierarquia da ICAR a lançar desde Roma um cobarde ataque à obra de Saramago: não é uma crítica nem um contributo para uma discussão sobre as religiões e as sociedades contemporâneas que não teriam coragem de fazer se Saramago fosse vivo: é uma demonstração de intolerância e de um pretenso totalitarismo a que o "povo de Saramago" (amigos, familiares, leitores, camaradas) respondeu marcando presença missiva na última homenagem que foi o seu funeral: um momento de divisão e clarificação entre quem defende a liberdade e a criatividade e quem defende o obscurantismo e a repressão.

2010-06-17

New Haven e Universidade de Yale

Edifícios da Universidade

New Haven vive para a Universidade de Yale, uma das mais prestigiadas do mundo, cujos edifícios ocupam todo o centro da cidade, entre colégios residenciais, bibliotecas, faculdades, auditórios, museus, serviços administrativos, cantinas e espaços de convívio. As ruas são amplas e arejadas, com muitos espaços verdes e edifícios antigos que convivem pacificamente com outros mais modernos. Muitos deles são antigas igrejas ou capelas reconvertidas para actividades académicas, com todas as condições necessárias, da iluminação, à acústica ou ao controle térmico.

Zona central do Campus

Apesar da hostilidade invernal e da neve abundante, circula-se bem a pé ou de bicicleta. A Universidade tem ainda uma rede de autocarros gratuitos mas reservados a estudantes, um primeiro sinal de brutalidade da exclusão social que se vive na cidade: o pessoal da Universidade frequenta o dito "Yale Shuttle", que à noite funciona como um táxi (qualquer estudante pode ligar e pedir para ser recolhido num determinado sítio para ser levado para outro ponto da cidade, o que também é válido para voltar para casa depois de beber uns copos); o resto das pessoas frequenta os autocarros públicos, que os estudantes são aconselhados a evitar. Estes autocarros são frequentados quase só por negros ou "hispânicos", os pretos e os brancos-quase-pretos de que fala a canção.

A população hispânica na cidade é imensa, sobretudo vinda do México e da Guatemala, os vizinhos geograficamente mais chegados, que constituem a mão-de-obra barata que faz funcionar os cafés, restaurantes, supermercados e algum do comércio e serviços locais, como a simpática lavandaria que eu utilizava, mesmo em frente de casa. Muitas destas pessoas não falam inglês e eu falava espanhol quase todos os dias ("castelhano" é uma designação que não é utilizada por estas bandas). A maior parte dos serviços públicos (como as finanças ou a segurança social) tem atendimento em espanhol.

A nossa bela lavandaria

Não são, no entanto, os "hispânicos" que pedem trocos ou cigarros pela cidade (fenómeno a que também assistia quase todos os dias): neste caso são quase todos negros. Fora do centro da cidade (e às vezes mesmo no centro) a criminalidade violenta é relativamente frequente (até Março deste ano mais de 20 pessoas tinham sido assassinadas, incluindo alguns estudantes, geralmente em situações relacionadas com assaltos). Acabei por constatar, pelas notícias, que os tais autocarros públicos são mesmo pouco aconselháveis, sobretudo fora do centro da cidade, com vários casos de assaltos violentos e de violações.

A Universidade, como todas as outras nos EUA, tem quotas para a população índia, negra ou hispânica: a questão a que me habituei a chamar "étnica" mas que eles designam como "racial" é aqui evidenciada todos os dias, na chegada aos aeroportos, na identificação das pessoas ou nos recenseamentos. Em Yale estudam ainda pessoas de todo o mundo: muita gente da China e do Japão, de África, da Europa, da América Latina, do Médio Oriente, da Austrália: é uma verdadeira Universidade global onde se cruzam múltiplas culturas mas onde, como acontece tantas vezes e em tantos lugares, os "estrangeiros" tendem a agrupar-se e a conviver entre si, de forma geralmente independente dos "americanos".

Maral no "Old Campus", depois das neves

A maior diferença que encontrei em relação às Universidades portuguesas foi o tipo de relacionamento com os professores: os alunos tratam qualquer professor pelo primeiro nome, em qualquer circunstância: seja para o interromper para colocar uma dúvida numa aula, numa mensagem de email ou numa conversa informal. O contacto é muito fácil e eficiente e os docentes são muito claros e esclarecedores no apoio que podem ou não dar às actividades dos estudantes: dizem que não e dizem que sim, marcam reuniões e cumprem, respondem rápida e claramente aos emails, lêem com atenção os documentos de trabalho e dão sugestões muito precisas sobre o que acham que se pode fazer.

Yale School of Forestry and Environment

As burocracias também são simples: no primeiro dia foi-me dado um cartão de estudante e atribuídos os dados (username e password) para acesso aos serviços "físicos" e "digitais" da Universidade (edifícios, bibliotecas, instalações desportivas, serviços médicos, transportes, etc). Estava vinculado à Yale School of Forestry and Environment, com o estatuto de "Visiting Assistant in Research", o que pressupunha ter um responsável pelo meu estágio. Não tinha qualquer avaliação mas também não recebi "créditos" e frequentei aulas de avaliação ambiental e de regressão estatística (na Yale School of Forestry) e ainda um workshop de produção e realização de documentários (na Yale School of Art).

Yale School of Forestry and Environment

Desde que comecei o programa de doutoramento, em 2007/2008, estes foram os primeiros meses em que me dediquei exclusivamente ao dito, o que significa que foi a primeira vez que me dediquei seriamente à tese. Já tinha um plano de trabalho genericamente definido e passei o mês de Fevereiro a definir exactamente o modelo econométrico que viria a utilizar. Em Março recolhi os dados estatísticos e em Abril comecei a trabalhar no seu tratamento. Contrariamente às expectativas iniciais, ficou concluído até ao fim de Maio o trabalho empírico da tese e tenho agora 15 meses para escrever a fundamentação teórica, com uma colecção de 300 papers que fui recolhendo nas excelentes Bibliotecas de Yale.

A minha biblioteca preferida

Como a cidade era pacata, com um razoável cinema, excelente teatro e pouco mais atractivos (sobretudo para quem não tem pachorra para as bebedeiras dos estudantes de 20 anos), o tempo disponível era muito. Deu para frequentar um workshop de documentários de que resultou a minha primeira experiência a filmar (com uma simpática Panasonic cedida pelo Digital Media Center for the Arts, da Universidade) e a fazer a edição em computador (com Final Cut Pro, também com equipamentos do DMCA). O resultou foi "Burritos y Esperanza", um curto documentário cpm 9 minutos e meio.

Café com cigarros e charutos

Foi essa abordagem das relações entre as pessoas e das pessoas com a aprendizagem que me pareceu fazer mais diferença em relação às Universidades portuguesas que conheço. De resto, as condições materiais até podiam aqui ser um pouco melhores (boas salas, muito confortáveis locais de estudo, bibliotecas "físicas" e digitais muito completas e de fácil acesso) mas tenho ideia que as Universidades portuguesas também estão hoje geralmente bem equipadas. O pior são as mentalidades encolhidas, as guerras de capelinhas, a escassa disponibilidade para a cooperação, a competição rasteira. Talvez por isso nunca tenha encontrado pessoas portuguesas enquanto cá estive, ainda que tenha convivido com alguma frequência com grupos de pessoal da Turquia ou do Irão (as duas nacionalidades da minha companheira). Não será certamente porque estes dois países tenham um sistema de Bolsas mais favorável que o português (na realidade, não têm nada que se compare com o que é oferecido em Portugal).

Decoração doméstica para o Ano novo iraniano, preparada pela Maral

100 fotos de New Haven e da Universidade de Yale